Os números mostram que o saneamento é também uma política de trabalho, renda, saúde e qualidade de vida
O debate sobre as condições de trabalho está em alta no país, mas há um fator que raramente entra na conta: as condições da casa onde o trabalhador mora. Antes de chegar ao emprego, quem trabalha depende de água tratada para se higienizar e se alimentar, de esgoto coletado e tratado para se proteger de doenças, e é isso que ainda falta para milhões de brasileiros. De acordo com dados do SINISA 2024, cerca de 33 milhões de pessoas não tinham acesso à água tratada e 90 milhões não tinham acesso à coleta de esgoto.
Sem saneamento, o impacto começa pela saúde. Em 2024, o Brasil registrou 336.165 internações e 4.877 óbitos por doenças de veiculação hídrica, como diarreia, dengue e leptospirose, segundo dados do DATASUS presentes no Painel Saneamento Brasil. Cada caso pode significar dias de afastamento do trabalhador, ou de quem cuida dele em casa, e menos produtividade para as empresas e para a economia.
Além disso, o resultado aparece no bolso de quem trabalha e vive sem condições básicas. Informações do IBGE 2024 disponíveis no Painel mostram que a renda média de quem tem saneamento é de R$ 3.447,79, contra R$ 2.320,39 de quem não tem, uma diferença de 48,6%. Menos doenças, mais anos de estudo e mais produtividade se refletem em salários maiores para quem vive em uma casa com água tratada e coleta de esgoto.
A produtividade de amanhã também depende do saneamento de hoje. Os dados do IBGE 2024 também ilustram que a escolaridade média de quem tem acesso ao saneamento é de 9,50 anos, enquanto a de quem não tem é de 7,50 anos, dois anos a menos de estudo. Como a escolaridade influencia diretamente a renda e a produtividade, a falta de saneamento afeta a vida profissional de quem ainda nem entrou no mercado de trabalho.
Em contrapartida, universalizar os serviços de água e esgotamento sanitário é sinônimo de desenvolvimento. De acordo com o estudo “Benefícios Econômicos e Sociais da Expansão do Saneamento no Brasil“, do Instituto Trata Brasil, a universalização pode gerar R$ 1,455 trilhão em benefícios entre 2021 e 2040, com saldo líquido de R$ 815,7 bilhões. O maior ganho vem da produtividade do trabalho, que deve aumentar a renda dos trabalhadores em R$ 438 bilhões no período, cerca de R$ 22 bilhões por ano.
Os números mostram que o saneamento é também uma política de trabalho, renda, saúde e qualidade de vida, ou seja, alcançar a universalização é investir em trabalhadores com mais saúde, mais anos de estudo e mais oportunidades.




